27/11/2007 00:57

Dúvidas sobre os juros e o custo das reservas

Enviado por: João Rocha

-Pesquisa recente, mostrou que a taxa selic não tem mais nenhuma influência no controle do consumo e que ainda está longe, com o crescimento do PIB em 5% aa. Será que é verdade?

-Existe um pensamento de que a Selic elevada é simplesmente uma ferramenta de garantia para rolar, com maior facilidade, a dívida mobiliária do tesouro nacional, na maioria, no Curto Prazo.Tem fundamento?

-Com economia em desenvolvimento e inflação estável, por que o banco central não se preocupa, nesse momento tranquilo, com a rolagem de nossa dívida para o Longo Prazo, proporcionando tranquilidade e segurança no fluxo de caixa, no planejamento de curto, médio e longo prazo?

-Pagando as maiores taxas de juros do planeta ou seja, 180% acima da inflação, não estaria o governo incentivando a entrada do capital especulativo em nosso país e que está forçando a valorização artificial do Real e o aumento das reservas internacionais, com maiores encargos para o tesouro nacional?

- Reserva não é sobra de recursos no balanço de receitas e despesas, para eventuais gastos ou investimentos futuros ?

-Reservas reais são para gerar rentabilidade e não, encargos ?

-Quanto o país paga anualmente para a manutenção das reservas, considerando os ganhos externos e os encargos internos?

-Você considera reserva, um financiamento bancário à taxa de juros de 11,25% ao ano e aplica esse mesmo recurso na poupança a 6% ao ano ?

-Por que o brasileiro, com inflação de 4% ao ano, paga juros médios capitalizados entre 40/120% ao ano, quando recorre a financiamentos?

- Quais os dez países em que o sistema financeiro privado cobra taxas de juros tão elevadas?

-Porque o governo não interfere nos custos das taxas e contribuiições bancárias, talvez uma das maiores do mundo e que renderam ao sistema financeiro, em 2006, mais de 56 bilhões de reais?

-Será que seria melhor manter as nossas reservas no pico máximo do endividamento externo estatal, sem euforia, e utilizar o saldo atual restante p/reduzir o endividamento interno?

-Será que o governo não está enxergando que teremos só uns R$ 90 bilhões de reais de superavit primário para pagar juros de uns R$ 150 bi em 2007 e que passará a ser principal da dívida os R4 60 bilhões restantes?

-Para que reservas tão altas?

-O colchão a que o governo se refere, para a munutenção de reservas, com os recursos dos outros, poderia ter um custo bem menor, desde que não houvesse a preocupação só com a plástica, porque um colchão mais barato tem a mesma qualidade, mas não paga pela "grife".

Respostas de Maria Clara:

Caro João Rocha, suas dúvidas não são triviais. Vou tentar esclarecer algumas.

Quanto aos juros cobrados pelo Banco Central nas operações com a taxa básica Selic - sua observação quanto à função da Selic no controle da demanda está parcialmente correta. É verdade que com o crédito consignado a taxas baixas e os programas que procuram redistribuir renda como o bolsa família, as classes de renda mais baixas ganharam maior poder aquisitivo e isso não tem nada a ver com a Selic.

Mas, por outro lado, não se deve ignorar que a taxa Selic, na medida em que influencia as demais taxas de juros da economia, tem a função de evitar um aumento desordenado do consumo que fatalmente afetaria a alta da inflação. Portanto, ainda que tenha hoje efeito menos abrangente porm força dos programas sociais do governo, a Selic não perdeu o papel que lhe cabe de funcionar como um dos principais instrumentos da política monetária.

Se a Selic está hoje mais alta do que deveria estar - tendo em vista o crescimento de 5% ao ano com inflação estabilizada em 4% ao ano - só o Banco Central poderia responder. Sem dúvida, a sociedade paga um preço sempre que se tem uma taxa de juros muito elevada. Isso encarece a dívida mobiliária do Tesouro Nacional (cuja boa parte ainda tem a remuneração diretamente atrelada à taxa Selic)e barateia o dólar em face ao real pela atração que os juros mais altos exercem sobre a entrada do capital estrangeiro de curto prazo.

Sobre o custo das reservas internacionais - para manter algum controle na valorização do real, o Banco Central compra dólares no mercado interno e com isso reforça as reservas internacionais do país. Também aqui, a sociedade paga um custo elevado pela política de acumulação de reservas.

Este custo está hoje estimado em torno de 6% ao ano, representando a diferença entre a remuneração interna dos papéis do Tesouro Nacional e a remuneração das aplicações das reservas em ativos no mercado internacional.

Um ponto importante: como não há a livre conversibilidade do real no país (ou seja, não se pode usar outra moeda como meio de pagamento e nem mesmo ter conta bancária em moeda estrangeira nos bancos, dentro do país) a troca cambial é obrigatória. Assim, para cada dólar que entra, seja pela via do comércio externo ou pela via do investimento ou das aplicações especulativas, sempre haverá a necessidade da conversão para a moeda nacional.

Os dólares trocados podem repousar nos caixas dos bancos, o que ajuda a empurrar o valor da moeda estrangeira para baixo quando há um grande volume de ingresso.

Ou, alternativamente, podem ser adquiridos pelo BC como forma de
tentar brecar a depreciação acentuada do dólar no mercado interno vis à vis o real. Neste caso, o BC injeta reais na economia que precisam ser esterilizados, ou seja, sair de circulação. O pouso mais seguro que o governo tem para isso é o processo de emissão de títulos do Tesouro Nacional, que se tornam atrativos quanto mais vantajosos for a remuneração oferecida.

Veja que as pontas estão de alguma forma amarradas. Se não houver a esterilização de parte dos reias injetados na economia através da troca cambial, a emissão primária da moeda nacional acabaria sendo exageradamente ampliada em consequência do que se chama de velocidade-renda da moeda.

Isto mede a quantidade de vezes que cada cédula troca de mão, denotando a capacidade de consumo gerada por unidade de moeda. Isto só não ocorre, ou pelo menos ocorre com velocidade menor, se houver incentivo à poupança e aqui entra o papel da taxa de juros. Ela não pode ser muito baixa a ponto de desestimular o ato de poupar em favor do ato de consumir. Não enquanto a capacidade de produção não tiver sido ampliada em ritmo consonante ao aumento do consumo, única forma de evitar que a pressão da demanda gere inflação de preços.

Última observação: não sei quantos países praticam taxas de juros tão altos quanto o Brasil mas seguramente os juros aqui continuam na lista dos mais elevados do mundo.


enviada por Maria Clara do Prado






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Maria Clara R. M. do Prado é jornalista, formada pela PUC do Rio e pós-graduada em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. É autora do livro �A Real História do Real�, lançado pela editora Record, onde revela os bastidores das discussões que levaram à criação da nova moeda em 1994. Sempre se dedicou aos temas da economia e das finanças, especializando-se em assuntos de bancos centrais. Foi correspondente em Londres. É colunista do jornal Valor Econômico e sócia- diretora da
Cin-Comunicação Inteligente. Recebeu o prêmio Jornalista Econômico de 2006, concedido pela Ordem dos Economistas do Brasil.