02/12/2007 22:57

Fundo Soberano, cada vez mais dúvidas


Cada vez que se toma conhecimento de declarações de representantes do governo sobre o fundo soberano do Brasil, mais confuso fica o entendimento dos objetivos do governo.

Disse o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, segundo o jornal O Estado de São Paulo, que o fundo não fará invetimentos diretos e nem comprará ações de empresas. De acordo com as declarações do ministro, os recursos reunidos pelo fundo no exterior seriam aplicados na compra de "títulos e debêntures que empresas ou instituições brasileiras emitam no exterior".

Vários aspectos relacionados à operacionalização do tal fundo soberano continuam obscuros. Por exemplo, não se sabe de onde vão sair os dólares (ou serão euros?) que vão compor o fundo no exterior. Serão recursos captados diretamente lá fora, através da emissão de papéis do BNDES, da Petrobrás ou de outra empresa brasileira? Se assim for, qual a função do fundo na história?

Sim, porque a Petrobrás e outras empresas nacionais privadas têm condições de realizar captação de recursos externos diretamente junto ao mercado internacional para investir no exterior, sem precisarem da bengala do fundo soberano. Várias empresas brasileiras, como tem sido fartamente noticiado, já estão enquadradas na categoria de "investment grade" (grau de investimento) e isso lhes dá a prerrogativa de captarem a custos mais baixos do que a própria República brasileira, que têm taxa de risco mais elevada.

Chega-se, por via de continuidade de raciocínio, à dúvida sobre o papel que teria o fundo na intermediação entre captação e aplicação dos recursos externos, uma vez que essa intermediação se mostra totalmente desnecessária no caso das grandes empresas já reconhecidas como saudáveis e confiáveis no mercado internacional.

Se o objetivo for destinar os recursos do tal fundo para os investimentos de outras empresas brasileiras, menos conhecidas e menos confiáveis, no exterior, as dúvidas se acumulam: a que taxas isso seria feito? com que garantias? quem cobriria o risco da inadimplência junto ao contribuinte brasileiro, uma vez que a propriedade do tal fundo é da socidade e não do governo? e, ainda, quem pagaria por eventuais rombos?

Bem, a essas inúmeras perguntas não respondidas, continua sem resposta a principal delas: daonde virão os dólares (ou euros?) que vão compor o fundo soberano do Brasil?


enviada por Maria Clara do Prado






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Maria Clara R. M. do Prado é jornalista, formada pela PUC do Rio e pós-graduada em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. É autora do livro �A Real História do Real�, lançado pela editora Record, onde revela os bastidores das discussões que levaram à criação da nova moeda em 1994. Sempre se dedicou aos temas da economia e das finanças, especializando-se em assuntos de bancos centrais. Foi correspondente em Londres. É colunista do jornal Valor Econômico e sócia- diretora da
Cin-Comunicação Inteligente. Recebeu o prêmio Jornalista Econômico de 2006, concedido pela Ordem dos Economistas do Brasil.