16/12/2007 00:17
Depois da derrota, a composição política
O fato mais importante, decorrente da derrota do governo no Senado Federal em torno da CPMF, é a mobilização que já se percebe claramente tanto da parte da situação quanto da oposição no sentido de se criar um imposto ou contribuição parecido com a CPMF, com a condição de que os recursos arrecadados sejam totalmente dirigidos à saúde.
No fundo, o resultado da votação que derrubou a CPMF deve ser lido como uma iniciativa de cunho basicamente político cuja principal intenção não era a de acabar com aquela contribuição mas mostrar para o governo federal que o Senado é uma Casa diferente da Câmara dos Deputados. O episódio Renan Calheiros (lembrado no post anterior) deixou sequelas no relacionamento do Senado com o Palácio do Planalto.
A corda das articulações em favor de Renan foi puxada em demasiado e foi longe demais, além daquilo que seria o suportável para uma instituição respeitável aguentar. A derrubada da CPMF foi um aviso de que os senadores em geral não estarão mais dispostos a aceitar o excesso de conchavos da parte do Executivo, para além do que pode ser considerado como plausível no padrão das manobras políticas.
Quanto à nova CPMF, a área econômica do governo não adiantou muito, mas tudo indica que continuará sendo cobrada tendo como base as operações do sistema financeiro.
enviada por Maria Clara do Prado
11/12/2007 14:18
Batalha da CPMF
A batalha em torno da CPMF talvez termine amanhã, talvez não. Se o desfecho for favorável ao governo, nada mudaria no quadro fiscal do país com a continuidade da cobrança da alíquota de 0,38% (até ordem em contrário) sobre todas as operações financeiras realizadas através da rede bancária, com raras exceções.
Aquele é o resultado ideal para a área econômica do governo. No entanto, se o desfecho for outro, a pergunta que se coloca hoje é a seguinte: que alternativas estariam reservadas à busca do reequilíbrio das combalidas contas públicas?
Ninguém sabe. Na verdade, a inexistência de alternativas e o desconhecimento de uma estratégia que o governo já deveria ter traçado à esta altura do campeonato, é o que mais assombra no episódio da CPMF. Está o Poder Executivo à mercê do Poder Legislativo em matéria de alta relevância como esta e a culpa é do próprio Executivo, pois deu importância demasiada às articulações políticas em torno do imbróglio Renan Calheiros, descuidando dos temas de maior importância para a sociedade.
A aprovação da emenda constitucional necessária para a prorrogação da CPMF foi usada desde o início do episódio Calheiros por um grupo de políticos ligados ao então presidente do Senado como moeda de troca para manter Renan no cargo. O desenrolar dos acontecimentos mostrou que a renúncia tornou-se inevitáve e o resultado da operação política de "salvamento" da reputação do senador está sendo colhido hoje. O Executivo está no escuro com relação à aprovação da emenda da prorrogação da CPMF e, pior, parece perdido sem saber o que fazer se a resposta da votação desta quarta-feira não for positiva.
Vale aqui fazer algumas observações sobre a CPMF e seus desdobramentos. A contribuição por ser olhada sob duas óticas.
Uma delas é a ótica arrecadatória. Não há hoje uma alternativa à altura que assegure a receita estimada no valor de R$ 40 bilhões para 2008. Ou, visto por outro ângulo, uma iniciativa que garanta a redução de gastos públicos no mesmo montante no ano que vem. O valor não é baixo. Se a fonte secar ou mesmo diminuir, o governo ficará na maior saia justa de que se tem notícia nos últimos anos em matéria fiscal.
A outra ótica da CPMF tem a ver com o efeito "fiscalizatório" que a contribuição tem sobre a movimentação do dinheiro que passa pelas instituições financeiras no país. Desse ponto de vista, sua cobrança tem um inegável apelo. Através dela, os órgãos governamentais tomam conhecimento, quando querem, da vida
"financeira" dos cidadãos brasileiros que têm acesso à rede bancária.
Sem entrar no mérito do aspecto fiscal, a CPMF tem um do ponto de vista fiscalizador um inegável papel a cumprir e não deveria desaparecer, ainda que fosse possível ajustar da noite para a dia as contas públicas a uma alíquota menor. Mesmo na suposição de que seja fácil substituir a CPMF por outro tipo de tributo, a contribuição deveria ser cobrada à taxa meramente simbólica.
Por fim, uma observação final sobre os estudos que procuram relacionar a carga maior da CPMF com pessoas de renda mais baixa. Esses estudos carecem de maior aprofundamento e rigor metodológico. Todos sabem que a carga tributária no Brasil é altamente regressiva: atinge com mais impacto proporcionalmente os mais pobres em comparação com os mais ricos e que a expliação disso está no peso dos impostos indiretos sobre o preço final das mercadorias vendidas ao público no varejo.
Impostos como o ICMS, por exemplo, oneram em demasia o preço final dos produtos. Outros impostos que recaem sobre as mercadorias de forma indireta e em "cascata" também são grandes vilões a prejudicarem a renda disponível das populações de mais baixa renda. Porém, a CPMF é um bicho de outra ordem pois recai justamente sobre aqueles que mais realizam movimentação financeira, além de ser cobrada de forma indiscrimada sobre saques e transferências de dinheiro.
Aquilo, é claro, lhe dá um carater regressivo, mas a dificuldade de se rastrear o percurso do dinheiro usado na compra de um saco de feijão - ou seja, se o pagamento foi feito na forma de cheque, se saiu de alguma conta-bancária do consumidor de renda mais baixa ou se o pagamento foi feito em espécie - dificulta os resultados das pesquisas que procuram correlacionar a incidência da CPMF com o peso que a cobrança da contribuição teria sobre os produtos básicos de consumo da população em geral. São temas que carecem de mais estudos.
enviada por Maria Clara do Prado
08/12/2007 22:48
Conta-corrente: a queda do saldo é relevante?
O assunto começa a ganhar as manchetes dos jornais e os comentários de analistas. A gradual redução que se observa no superávit da conta-corrente do balanço de pagamentos preocupa alguns especialistas, temerosos de que isso seja o primeiro sinal de problemas potenciais nas contas externas do país.
A questão, no entanto, deveria ser discutida em maior profundidade, uma vez que não é "normal" países em desenvolvimento financiarem os países mais ricos, através dos saldos positivos em suas contas-correntes.
A China faz isso com facilidade do yuan depreciado diante do dólar e de custos ainda baratos nas linhas de produção, especialmente da mão de obra. Na grande maioria dos "emergentes", produtores de bens primários, a realidade é outra. Os altos superávits alcançados na conta-corrente se explicam basicamente pela pressão de demanda que exerce justamente a economia chinesa sobre aqueles bens, como petróleo, minérios, minerais em gerais e produtos agrícolas.
Já se falou aqui sobre o tema. Mas poucos se dão conta de que o passo natural das nossas contas externas é a geração de saldos cada vez menores em conta-corrente se a economia brasileira continuar crescendo a taxas robutas, como muitos já prognosticam.
A tendência da produção interna deveria ser a de atender o aumento da demanda, deslocando para dentro do país parte dos bens que hoje são exportados. Isto, é claro, na suposição de que o crescimento seja sustentado. Quer dizer, que se dê com investimentos que garantam a ampliação da capacidade produtiva do país. Neste caso, reduções dos superávits em conta-corrente são um bom indicador e não deveriam suscitar maiores preocupações.
O assunto foi tema da coluna publicada na edição do último dia 6, no jornal Valor Econômico. Ouso dizer ali que a queda do superávit em conta-corrente não tem hoje importância. Pelo contrário, indica que a economia passa por um movimento salutar. O artigo pode ser acessado na janela "textos e ensaios" deste blog.
enviada por Maria Clara do Prado
07/12/2007 14:08
Comentário do leitor João da Rocha: percalços da Selic
A SELIC CONTINUA A MESMA
Somos um país totalmente diferenciado de qualquer outra nação, no que diz respeito ao controle da economia, das finanças e na proteção do Consumidor. Cito alguns exemplos:
- Temos uma inflação de 4% a.a, igual a inflação de países de primeiro mundo, mas adotamos uma tx Selic que se iguala ao terceiro mundo e ainda com absoluta liderança.
- Para manter a Selic elevada, com ágio de 7,25% acima da inflação, o Tesouro Nacional ( o povo ) irá pagar ou rolar juros sobre a s/ dívida, de mais de R$ 110 bilhões "Reais", sómente em 2007 e os juros nominais passarão de um montante de R$ 160 bilhões.
- O BC justifica e o governo concorda, não sei porque, q uma Selic elevada é a garantia de contenção do risco de inflação. E, coincidentemente, antes de cada reunião do COPOM, notícias são plantadas e pautadas na imprensa, com competencia e por um período razoável, para dar respaldo às decisões.
É uma engrenagem perfeita e que sempre deu certo, mas só que em favor do sistema financeiro . Houve mesmo um tempo, que não é tão distante, em que uma elite de formadores de opinião, remunerados ou não, influenciavam fortemente as decisões do BC.
- Nos USA e em outros países de primeiro mundo e mesmo do BRIC, as taxas oficiais de juros realmente são inibidoras de risco inflacionário, mas só que os ágios dos Bancos sobre elas e como verdadeiro referencial, não passam de de 1 a 4% .
-Aquí no Brasil , os Bancos cobram ágios entre 60 a 200% acima da inflação, para financiamento aos consumidores, na cesta de produtos ofertados.
O primeiro mundo está baixando as suas taxas de juros e o volumoso e irresponsável capital volátil, tem no Brasil um "porto seguro", livre a qualquer hora e momento do dia e da noite para " atracar" e "zarpar", sem ser molestado nas suas operações mercantis especulativas.Tem-se a impressão até de que somos um "paraiso fiscal".
As Contas do Tesouro, do exercicio que se encerra em poucos dias, nos vão dar uma visão bem ampla e real do comportamento da economia e das finanças do Governo, nas rubricas de Juros e Engargos Financeiros, inclusive sobre as reservas internacionais.
Quanto a manutenção da Selic, de acordo com dados do IBGE , os aumentos da Carne e do Feijão independeram dos 11,25% porque foram e continuam sendo sazonais.
O que se conclui , com a colocação das pedras no tabuleiro, é que a Selic está servindo mesmo é de um grande e confortável "colchão" para recepcionar os hospedes do capital especulativo, nos banquetes das rolagens da dívida do Tesouro Nacional, que infelizmente continua no Curto Prazo.
E os especuladores, sabendo perfeitamente disso, já estão sinalizando que querem mais além dos 11,25% ao ano.
E, finalizando, o governo sempre afirma que os efeitos da selic sobre a economia e sobre o sistema financeiro só começam a aparecer depois de uma longa maturação. Mas porque aparecem tão rápidos esses efeitos quando diz respeito à remuneração paga pelos bancos aos investidores em seus papéis e na prestação de seus serviços. Logo são dois pesos e duas medidas.
Nos USA e em todos os paises de primeiro mundo e em desenvolvimento, os efeitos de quaisquer medidas são imediatos em beneficio do cidadão.
As nossas taxas de serviços bancários, continuam as maiores do mundo e uma decisão na defesa dos brasileiros vem sendo protelada a cada dia e entrarão em vigor com uma carencia de 6 meses.
Quando a nossa população for mais alfabetizada e a internet assumir a dimensão do seu importante papel, tenho certeza de que alguma coisa irá melhorar e muito, muito, muito...
enviada por Maria Clara do Prado
05/12/2007 11:22
Crescimento Industrial em descompasso com infra-estrutura
A ninguém deveria surpreender os resultados sobre o desempenho industrial de outubro, divulgados hoje pelo IBGE. Basta andar pelas ruas de São Paulo (e de outras cidades brasileiras)para sentir na pele que a economia já cresce, aceleradamente, ao ritmo de mais de 4,5% ao ano.
O termômetro "vivencial", digamos assim, da expansão do PIB é um indicador que se sente pelo maior movimento de carros - e dos engarrafamentos lineares que se perpetuam ao longo do dia, não importa a hora - e também pelo incrível aumento no volume de caminhões que circulam pela cidade, transportando mercadorias dos mais diversos tipos.
A informação de que a produção industrial expandiu-se em 10,3% em outubro deste ano em comparação com o mmesmo mês do ano passado apenas veio confirmar em dados aquilo que já se percebia na prática. No acumulado de doze meses, a indústria brasileira cresceu 5,3% até outubro, cinco pontos de porcentagem a mais sobre o acumulado medido até setembro.
O importante não é a taxa de crescimento do PIB em si, pois este pode aumentar de forma não sustentada o que lhe daria fôlego curto. Desta vez, o relevante está nas informações que explicam a expansão da economia e que, pelo que nos diz o IBGE, contribuem para configurar um quadro de crescimento salutar.
Os pontos positivos podem ser resumidos em três cruciais informações que se conjugam para explicar o atual processo da atividade econômica: maior investimento, aumento do consumo doméstivo e dinamismo do comércio externo. Tudo isso tem ajudado a indústria brasileira a crescer, ampliando a capacidade produtiva que é, como se sabe, o dado fundamental para que o PIB possa ser ampliado sem maiores impactos na inflação.
Também o comportamento setorial acusam um processo salutar de crescimento. Isto se revela nas informações que apontam os bens intermediários como o setor de maior crescimento em outubro, de 2,7% sobre setembro, e o setor de bens de capital como o segundo na lista dos que mais se expandiram em outubro, acusando aumento de 1,8% sobre setembro.
É claro que as ruas estão entupidas de carros porque há mais renda nos bolsos dos brasileiros e isso se confirma no dado que aponta o peso do setor automobilístico - com alta de 7% - na produção industrial de outubro. Mas outros setores reveladores da ampliação da atividade econômica também têm crescido significativamente, como o de produção de máquinas para escritórios e equipamento de informática.
Voltando um pouco para meses atrás, pode-se concluir que a atmosfera de medo e as previsões pessimistas sobre os desdobramentos da crise financeira internacional sobre a atividade econômica brasileira foram exageradas. O país rapidamente voltou ao curso de expansão que tem guiado o comportamento da economia desde o ano passado.
O problema, agora, não é o risco da recessão a curto prazo, mas sim as consequências que os brasileiros em geral tendem a enfrentar no seu dia-a-dia se a taxa de crescimento do PIB pular para os patamares de 6% a 7% ao ano, como previu recentemente o ex-ministro do planejamento, Delfim Netto.
É que a infra-estrutura do país não está preparada para acomodar de forma suave, com certo conforto e sem maiores atritos, um PIB maior. O espaço das ruas de São Paulo é apenas um sinal urbano para os que vivem na maior cidade do país do descompasso entre o ritmo da atividade econômica e as bases da infra-estrutura existentes. Outros gargalos também são sentidos no setor de energia e no setor de transportes em geral, incluindo aqui as malhas rodoviária e ferroviária.
Esta é hoje a questão mais emergente a ser enfrentada rapidamente pelo governo e pela iniciativa privada, sob pena de morrermos todos na praia depois de termos nadado tanto!
enviada por Maria Clara do Prado
02/12/2007 22:57
Fundo Soberano, cada vez mais dúvidas
Cada vez que se toma conhecimento de declarações de representantes do governo sobre o fundo soberano do Brasil, mais confuso fica o entendimento dos objetivos do governo.
Disse o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, segundo o jornal O Estado de São Paulo, que o fundo não fará invetimentos diretos e nem comprará ações de empresas. De acordo com as declarações do ministro, os recursos reunidos pelo fundo no exterior seriam aplicados na compra de "títulos e debêntures que empresas ou instituições brasileiras emitam no exterior".
Vários aspectos relacionados à operacionalização do tal fundo soberano continuam obscuros. Por exemplo, não se sabe de onde vão sair os dólares (ou serão euros?) que vão compor o fundo no exterior. Serão recursos captados diretamente lá fora, através da emissão de papéis do BNDES, da Petrobrás ou de outra empresa brasileira? Se assim for, qual a função do fundo na história?
Sim, porque a Petrobrás e outras empresas nacionais privadas têm condições de realizar captação de recursos externos diretamente junto ao mercado internacional para investir no exterior, sem precisarem da bengala do fundo soberano. Várias empresas brasileiras, como tem sido fartamente noticiado, já estão enquadradas na categoria de "investment grade" (grau de investimento) e isso lhes dá a prerrogativa de captarem a custos mais baixos do que a própria República brasileira, que têm taxa de risco mais elevada.
Chega-se, por via de continuidade de raciocínio, à dúvida sobre o papel que teria o fundo na intermediação entre captação e aplicação dos recursos externos, uma vez que essa intermediação se mostra totalmente desnecessária no caso das grandes empresas já reconhecidas como saudáveis e confiáveis no mercado internacional.
Se o objetivo for destinar os recursos do tal fundo para os investimentos de outras empresas brasileiras, menos conhecidas e menos confiáveis, no exterior, as dúvidas se acumulam: a que taxas isso seria feito? com que garantias? quem cobriria o risco da inadimplência junto ao contribuinte brasileiro, uma vez que a propriedade do tal fundo é da socidade e não do governo? e, ainda, quem pagaria por eventuais rombos?
Bem, a essas inúmeras perguntas não respondidas, continua sem resposta a principal delas: daonde virão os dólares (ou euros?) que vão compor o fundo soberano do Brasil?
enviada por Maria Clara do Prado
27/11/2007 00:57
Dúvidas sobre os juros e o custo das reservas
Enviado por: João Rocha
-Pesquisa recente, mostrou que a taxa selic não tem mais nenhuma influência no controle do consumo e que ainda está longe, com o crescimento do PIB em 5% aa. Será que é verdade?
-Existe um pensamento de que a Selic elevada é simplesmente uma ferramenta de garantia para rolar, com maior facilidade, a dívida mobiliária do tesouro nacional, na maioria, no Curto Prazo.Tem fundamento?
-Com economia em desenvolvimento e inflação estável, por que o banco central não se preocupa, nesse momento tranquilo, com a rolagem de nossa dívida para o Longo Prazo, proporcionando tranquilidade e segurança no fluxo de caixa, no planejamento de curto, médio e longo prazo?
-Pagando as maiores taxas de juros do planeta ou seja, 180% acima da inflação, não estaria o governo incentivando a entrada do capital especulativo em nosso país e que está forçando a valorização artificial do Real e o aumento das reservas internacionais, com maiores encargos para o tesouro nacional?
- Reserva não é sobra de recursos no balanço de receitas e despesas, para eventuais gastos ou investimentos futuros ?
-Reservas reais são para gerar rentabilidade e não, encargos ?
-Quanto o país paga anualmente para a manutenção das reservas, considerando os ganhos externos e os encargos internos?
-Você considera reserva, um financiamento bancário à taxa de juros de 11,25% ao ano e aplica esse mesmo recurso na poupança a 6% ao ano ?
-Por que o brasileiro, com inflação de 4% ao ano, paga juros médios capitalizados entre 40/120% ao ano, quando recorre a financiamentos?
- Quais os dez países em que o sistema financeiro privado cobra taxas de juros tão elevadas?
-Porque o governo não interfere nos custos das taxas e contribuiições bancárias, talvez uma das maiores do mundo e que renderam ao sistema financeiro, em 2006, mais de 56 bilhões de reais?
-Será que seria melhor manter as nossas reservas no pico máximo do endividamento externo estatal, sem euforia, e utilizar o saldo atual restante p/reduzir o endividamento interno?
-Será que o governo não está enxergando que teremos só uns R$ 90 bilhões de reais de superavit primário para pagar juros de uns R$ 150 bi em 2007 e que passará a ser principal da dívida os R4 60 bilhões restantes?
-Para que reservas tão altas?
-O colchão a que o governo se refere, para a munutenção de reservas, com os recursos dos outros, poderia ter um custo bem menor, desde que não houvesse a preocupação só com a plástica, porque um colchão mais barato tem a mesma qualidade, mas não paga pela "grife".
Respostas de Maria Clara:
Caro João Rocha, suas dúvidas não são triviais. Vou tentar esclarecer algumas.
Quanto aos juros cobrados pelo Banco Central nas operações com a taxa básica Selic - sua observação quanto à função da Selic no controle da demanda está parcialmente correta. É verdade que com o crédito consignado a taxas baixas e os programas que procuram redistribuir renda como o bolsa família, as classes de renda mais baixas ganharam maior poder aquisitivo e isso não tem nada a ver com a Selic.
Mas, por outro lado, não se deve ignorar que a taxa Selic, na medida em que influencia as demais taxas de juros da economia, tem a função de evitar um aumento desordenado do consumo que fatalmente afetaria a alta da inflação. Portanto, ainda que tenha hoje efeito menos abrangente porm força dos programas sociais do governo, a Selic não perdeu o papel que lhe cabe de funcionar como um dos principais instrumentos da política monetária.
Se a Selic está hoje mais alta do que deveria estar - tendo em vista o crescimento de 5% ao ano com inflação estabilizada em 4% ao ano - só o Banco Central poderia responder. Sem dúvida, a sociedade paga um preço sempre que se tem uma taxa de juros muito elevada. Isso encarece a dívida mobiliária do Tesouro Nacional (cuja boa parte ainda tem a remuneração diretamente atrelada à taxa Selic)e barateia o dólar em face ao real pela atração que os juros mais altos exercem sobre a entrada do capital estrangeiro de curto prazo.
Sobre o custo das reservas internacionais - para manter algum controle na valorização do real, o Banco Central compra dólares no mercado interno e com isso reforça as reservas internacionais do país. Também aqui, a sociedade paga um custo elevado pela política de acumulação de reservas.
Este custo está hoje estimado em torno de 6% ao ano, representando a diferença entre a remuneração interna dos papéis do Tesouro Nacional e a remuneração das aplicações das reservas em ativos no mercado internacional.
Um ponto importante: como não há a livre conversibilidade do real no país (ou seja, não se pode usar outra moeda como meio de pagamento e nem mesmo ter conta bancária em moeda estrangeira nos bancos, dentro do país) a troca cambial é obrigatória. Assim, para cada dólar que entra, seja pela via do comércio externo ou pela via do investimento ou das aplicações especulativas, sempre haverá a necessidade da conversão para a moeda nacional.
Os dólares trocados podem repousar nos caixas dos bancos, o que ajuda a empurrar o valor da moeda estrangeira para baixo quando há um grande volume de ingresso.
Ou, alternativamente, podem ser adquiridos pelo BC como forma de
tentar brecar a depreciação acentuada do dólar no mercado interno vis à vis o real. Neste caso, o BC injeta reais na economia que precisam ser esterilizados, ou seja, sair de circulação. O pouso mais seguro que o governo tem para isso é o processo de emissão de títulos do Tesouro Nacional, que se tornam atrativos quanto mais vantajosos for a remuneração oferecida.
Veja que as pontas estão de alguma forma amarradas. Se não houver a esterilização de parte dos reias injetados na economia através da troca cambial, a emissão primária da moeda nacional acabaria sendo exageradamente ampliada em consequência do que se chama de velocidade-renda da moeda.
Isto mede a quantidade de vezes que cada cédula troca de mão, denotando a capacidade de consumo gerada por unidade de moeda. Isto só não ocorre, ou pelo menos ocorre com velocidade menor, se houver incentivo à poupança e aqui entra o papel da taxa de juros. Ela não pode ser muito baixa a ponto de desestimular o ato de poupar em favor do ato de consumir. Não enquanto a capacidade de produção não tiver sido ampliada em ritmo consonante ao aumento do consumo, única forma de evitar que a pressão da demanda gere inflação de preços.
Última observação: não sei quantos países praticam taxas de juros tão altos quanto o Brasil mas seguramente os juros aqui continuam na lista dos mais elevados do mundo.
enviada por Maria Clara do Prado
26/11/2007 12:34
Forte interesse pelas ações da BM&F afeta valor de corte
O forte interesse manifestado pelas pessoas físicas em adquirirem ações da Bolsa de Mercadorias e de Futuros (BM&F)deve reduzir o valor de corte que vai definir o montante de ações para cada interessado. Estima-se no mercado que o valor de corte não deva exceder os R$10 mil por pessoa física.
Se confirmado, aquele valor será ligeiramente mais baixo do que os R$ 12.098,00, que coube a cada investidor, pessoa física, no processo de abertura de capital da Bovespa.
A expectativa de que o "corte" da quantidade de ações da BM&F seja menor tem a ver com a extraordinária demanda que bancos e corretoras têm recebido por parte de pessoas físicas interessadas em adquirir os papéis daquela bolsa no mercado primário, ou seja, no processo de lançamento das ações em IPO que caracteriza a abertura de capital de uma empresa.
O interesse das pessoas pelas ações da BM&F cresceu depois da valorização observada com as ações da Bovespa, lançadas há um mês, e que logo no primeiro dia do IPO ganharam mais de 50% sobre o preço de R$ 23,00 por ação definido para a venda no mercado primário. Hoje, um mês depois, as ações da Bovespa continuam muito valorizadas, sendo negociadas no mercado secundário com alta de mais de 38% sobre o preço inicial.
Os preços para a venda das ações da BM&F estão fixados no interevalo de referência de R$ 14,50 a R$ 16,50, mas valor final para o IPO deve ficar acima disso.
A BM&F vai lançar em oferta pública um total de 260.160.736 ações, quantidade que poderá ser ampliada em até 15%. Isto representará 28% do capital da bolsa que a partir do dia 30 deste mês, com a estréia de suas ações na Bovespa, deixará de ser uma entidade com características de sociedade por quotas, sem fins lucrativos,para se tornar uma empresa de capital aberto, do mesmo jeito como ocorreu com a Bovespa.
A mudança no regime de constituição jurídica das bolsas é um passo fundamental para o maior desenvolvimento do mercado de capitais do país. O principal motivo é a profissionalização que o processo impõe não apenas aos dirigentes das bolsas, mas também às corretoras de valores que passam para a categoria de sócias, deixando de ser meros quotistas.
Na nova condição de sócias da BM&F, as corretoras terão suas atividades monitoradas e rigorosamente fiscalizadas por um comitê criada especificamente para isso. Vão ter de mostrar eficiência e alto padrão dos serviços oferecidos ao público.
Só na quarta-feira desta semana, dia 28 -depois de contabilizado o interesse de aquisição por parte dos investidores institucionais, como fundos de investimentos - é que se saberá o valor de corte para a quantidade de ações que caberá a cada investidor, pessoa física que fez a reserva antecipada dos papéis e cujo prazo para essa reserva, vale lembrar, termina amanhã, terça-feira.
O valor do corte, como se sabe, depende não apenas da quantidade de ações a ser vendida para cada um, mas também do valor pelo qual cada ação será finalmente oferecida ao público no momento do IPO.
enviada por Maria Clara do Prado
25/11/2007 15:51
Carga tributária se consolida em 35% do PIB
Enquanto a Receita Federal refazia os cálculos do aumento da arrecadação de outubro - corrigindo para menos um valor equivocadamente divulgado pelo próprio órgão da arrecadação fiscal - a carga tributária continuava caminhando celeremente para absorver cada vez mais renda gerada pelo setor privado.
De acordo com a compilação sistemática efetuada pelo prof. Amir Khair, da USP, especialista em questões fiscais, a estimativa atualizada da carga tributária para 2007 é de 35,3% do PIB, acusando aumento de 1,1 ponto de porcentagem sobre o tamanho da carga ocorrida em 2006, que foi equivalente a 34,2% do PIB. A União seria responsável por 90,5% desse crescimento, os Estados por 6,5% e os Municípios por 3,0%.
A projeção de Khair supõe que sejam mantidas até o final do ano as tendências de arrecadação observadas até outubro para a União e até setembro para Estados e Municípios. Os destaques são para o imposto de renda e previdência social, que respondem por 52,9% da
elevação da carga tributária em 2007.
A carga tributária é obtida pela divisão da arrecadação dos tributos (impostos, contribuições e taxas) da União, Estados e Municípios pelo Produto Interno Bruto (PIB). Assim, quanto mais alta a arrecadação e menor o PIB, maior é a carga de tributos. A União participa com 70% do total de tributos, contribuições e taxas arrecadadas, enquanto que os estados têm participação de 26% e os Municípios respondem por 4% da carga total.
Para Amir Khair, a única forma para evitar a continuação persistente a cada ano de aumento da Carga tributária seria a decisão da União de promover uma redução ampla em todas as alíquotas de seus tributos (CPMF, Cofins, PIS, CSLL, INSS e CSLL), desonerando integralmente os investimentos. Ele também defende a adoção de desonerações específicas adicionais aos setores mais afetados pelo câmbio.
Ele esclarece que aquelas iniciativas não iriam garantir a queda da arrecadação, uma vez que tenderiam a promover uma maior formalização da economia e aumento do crescimento, com perspectiva de redução da inadimplência e da sonegação. Tudo isso, aliada à maior eficiência do fisco, funcionaria no sentido de manter elevada a receita tributária. A grande vantagem de um abatimento nso tributos que oneram o processo produtivo é justamente o efeito positivo que isso teria sobre as decisões de investimento.
Mais produção significa mais empregos, mais renda e mais consumo, uma equação que beneficia a todos, em especial aos cofres do governo que sempre acumulam mais recursos quando a economia se desenvolve.
Na avaliação de Khair, a proposta de reforma tributária não prevê redução da carga tributária e nem de sua alta regressividade. Teria assim, na opinião dele, pouca chance de ser aprovada, tendo em vista que a principal alteração que é o IVA (imposto sobre valor adicionado) afetaria profundamente com o ICMS, imposto que responde, em média, por 83% da receita dos Estados. "Muitos governadores não abrem mão da guerra fiscal", nota o economista.
Ele teme que quanto mais tempo se passar discutindo a reforma tributária no Congresso Nacional, sem que se tome a iniciativa de reduzir as alíquotas de impostos e contribuições no curto prazo, mais grave se tornará a competitividade das empresas brasileiras e pior será a situação dos contribuintes de menor renda que são os mais atingidos pela elevação da carga tributária.
enviada por Maria Clara do Prado
22/11/2007 14:22
As incertezas sobre a economia mundial
O feriado nos Estados Unidos dá um refresco no nível de apreensão que voltou a tomar conta dos mercados desde que o Fed, o Banco Central, indicou esta semana a expectativa de que a economia norte-americana cresça em 2008 menos do que se esperava. Fala-se agora em algo em torno de 2,5%, abaixo dos 2,8% estimados antes.
A questão não é o tamanho da queda prevista - que, a rigor, não chega a ser tão espetacular em termos absolutos - mas sim a sinalização disso. A preocupação não é apenas com o ano que vem, mas com 2009, 2010 e com os anos seguintes.
Ou seja, aprofundou-se a dúvida sobre o carater da situação que se vive hoje no mercado financeiro: será a crise dos ativos alavancados algo que tende a se dissolver aos poucos, com o tempo, ou estamos passando por uma mudança radical, para um novo cenário diferente daquele que se viu no decorrer dos últimos anos?
Se a resposta estiver na segunda alternativa, o buraco será bem mais fundo. Significa dizer que o período de inflação baixa, crescimento robusto e abundância de liquidez e de geração de riqueza está com os dias contados.
Qualquer assertiva com relação ao futuro é temerária e teria grandes chances de estar errada, mas sem dúvida os sinais emitidos aqui e ali no sentido da busca de realinhamento dos mercados provam que a economia mundial começou a passa por uma fase de transição.
Dólar fraco, petróleo e demais commodities em alta, alimentos mais caros, são alguns episódios que não têm grandes perspectivas de se perpetuarem. Parece que o desalinhamento entre moedas e entre o fluxo de comércio chegou finalmente ao ponto em que os ajustes tornam-se inexoráveis.
Para melhor entender a relação entre as principais moedas, o efeito disso nos fluxos comerciais, além do papel da valorização do petroleo no cenário mundial, recomenda-se a leitura de texto de minha autoria, públicado no jornal Valor Econômico. O artigo está reproduzido na íntegra na janela "textos e ensaios" deste blog.
enviada por Maria Clara do Prado
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